Corvos conseguem compreender o conceito de zero e avaliar probabilidades para maximizar ganhos, segundo pesquisas de neurobiologia. A descoberta integra um conjunto de achados que mostram habilidades matemáticas complexas em aves, família que inclui corvos, gralhas e a gralha-azul.
Em testes de laboratório, pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, treinaram corvos para identificar conjuntos de objetos com diferentes quantidades. Quando os cientistas apresentavam exibições vazias, as aves tratavam a ausência de elementos como uma quantidade válida e a posicionavam no início de uma sequência numérica, logo antes do número um.
Os padrões de erro confirmaram a descoberta. Os corvos confundiram zero com o número um com mais frequência do que com valores maiores. Registros neurais revelaram células cerebrais específicas que respondiam apenas a exibições vazias. O experimento demonstrou uma representação não-simbólica do zero, funcionando como um alicerce evolutivo para a matemática.
Essa habilidade diferencia os corvos. Enquanto muitas espécies animais detectam presença ou ausência de estímulos, os corvos vão além ao posicionar conjuntos vazios em uma linha numérica mental ordenada. Eles diferenciam o zero do número dois com mais facilidade do que do número um, efeito conhecido como distância numérica.
Não é o uso simbólico do zero que humanos aplicam em álgebra ou cálculo formal. Trata-se de um precursor cognitivo ancestral que permite estimar e comparar quantidades sem linguagem. O mecanismo prova que a intuição numérica precedeu o surgimento da espécie humana, uma vez que primatas e aves divergiram há mais de 360 milhões de anos.
Corvos avaliam chances e escolhem com precisão
Em outro experimento sobre probabilidades, corvos-pretos aprenderam a associar imagens geométricas exibidas em telas sensíveis ao toque a diferentes chances de receber alimento. Cada símbolo representava uma probabilidade específica de recompensa, variando de 10% a 90%. As aves assimilaram as taxas de sucesso exclusivamente por meio da experiência prática, sem receber instruções formais.
Ao enfrentarem escolhas entre pares de símbolos inéditos, os corvos selecionaram de forma consistente as opções estatisticamente mais favoráveis. As aves não realizam cálculos percentuais formais, mas extraem regularidades probabilísticas da experiência. Elas armazenam essas taxas na memória para maximizar os ganhos em cenários imprevisíveis.
Fundamentos matemáticos compartilhados entre espécies
As bases cognitivas do pensamento matemático surgiram centenas de milhões de anos antes da evolução humana. Ao comparar a atividade cerebral de primatas e aves, pesquisadores identificaram que sistemas neurais muito distintos processam informações numéricas de forma bastante semelhante. Essa convergência revela como a inteligência flexível dos corvídeos molda escolhas estratégicas diante de incertezas no ambiente natural.
Bebês humanos pré-verbais demonstram sensibilidade a variações numéricas e probabilidades simples. Por volta dos quatro anos, as crianças desenvolvem a compreensão intuitiva de conjuntos vazios. O comportamento observado nos corvos assemelha-se aos padrões registrados em bebês e primatas não humanos, reforçando que os fundamentos da intuição numérica são anteriores à humanidade.
Enquanto as crianças expandem o raciocínio matemático por meio da linguagem, da cultura e dos símbolos formais, os animais utilizam sistemas herdados para estimar quantidades no ambiente. Pertencentes à ordem dos passeriformes, os corvos são classificados como aves canoras e conseguem imitar sons complexos, incluindo fala humana, demonstrando controle voluntário avançado sobre emissões sonoras.
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