Usar o ChatGPT para estudar pode contribuir para o aprendizado, mas tudo depende de como a ferramenta é usada. Quando funciona como apoio com objetivos pedagógicos claros, a inteligência artificial ajuda. Quando substitui o raciocínio do aluno, atrapalha. A conclusão vem de estudos da OCDE apresentados no Digital Education Outlook 2026.
A diferença está no tipo de pergunta que o estudante faz à máquina. “A inteligência artificial pode ser uma excelente parceira no processo de aprendizagem. O problema começa quando o estudante deixa de perguntar ‘como eu chego a essa resposta?’ e passa apenas a perguntar ‘qual é a resposta?'”, explica o professor Cézar Mezzalira, coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Afya Centro Universitário de Pato Branco.
Acertar na prova não significa aprender
A OCDE chama de “descarga cognitiva” o fenômeno em que uma ferramenta externa assume parte do esforço mental necessário para resolver uma tarefa. Um experimento com cerca de mil alunos do Ensino Médio em matemática revelou o risco. Os estudantes com acesso irrestrito a uma inteligência artificial baseada em GPT obtiveram 48% de desempenho superior nos exercícios em sala. Quando fizeram uma prova sem a ferramenta depois, o desempenho caiu 17% abaixo do esperado.
Uma versão da IA desenvolvida especificamente para funcionar como tutora, oferecendo orientação sem entregar as respostas prontas, reduziu significativamente esse efeito. Segundo Mezzalira, o aluno que recebe a resposta pronta cria uma falsa sensação de domínio. “O aluno lê, entende naquele momento e acredita que aprendeu”, comenta o professor.
Uma maneira de verificar se o aprendizado foi real é desligar a ferramenta e tentar explicar o conteúdo com as próprias palavras ou resolver um problema similar sozinho. Se surgem dificuldades, ainda há lacunas no conhecimento a preencher.
Como usar ChatGPT como aliado real
Em vez de pedir à ferramenta que resolva uma questão ou faça um trabalho inteiro, o estudante pode usá-la como tutora. O ChatGPT pode formular perguntas sobre um tema, apresentar problemas sem revelar as respostas logo de cara, avaliar textos que o aluno escreveu ou apontar erros no raciocínio.
A ferramenta também oferece explicações em níveis diferentes de complexidade, exemplos reais, comparações entre conceitos e simulados. Em todos esses casos, a tecnologia fornece estímulos enquanto o estudante fica responsável por construir a resposta. “Se utilizada para explicar um conceito de outra maneira, criar exercícios, levantar questionamentos ou confrontar uma conclusão que o próprio aluno construiu, ela pode estimular o aprendizado. Mas, se todo o raciocínio for terceirizado, perde-se justamente uma das etapas mais importantes do estudo”, afirma Mezzalira.
A importância de questionar a máquina
A UNESCO defende uma abordagem centrada no ser humano para o uso de inteligência artificial na educação, destacando a necessidade de desenvolver capacidades humanas e usar a tecnologia de forma segura, ética e significativa.
Um ponto crítico é a confiabilidade das respostas. Sistemas de inteligência artificial generativa podem fornecer informações incorretas ou imprecisas, apresentadas de forma convincente. “Por isso, especialmente em atividades acadêmicas, é importante verificar dados, autores, referências e conceitos em fontes confiáveis, em vez de assumir que uma resposta está correta apenas porque foi apresentada de maneira convincente”, alerta Mezzalira.
Uma pesquisa apresentada na conferência CHI 2025 analisou 319 profissionais e 936 exemplos reais de uso de inteligência artificial no trabalho. O estudo encontrou associação entre maior confiança nas respostas da máquina e menor exercício de pensamento crítico. Com a tecnologia, parte da atividade crítica passa a envolver a verificação das informações, a integração das respostas e a supervisão do conteúdo produzido.
Para Mezzalira, o cenário reforça a necessidade de aprender não apenas a usar a inteligência artificial, mas também a questionar suas respostas. “O estudante precisa continuar sendo protagonista. Isso significa desconfiar, conferir fontes, comparar informações, formular boas perguntas e ter conhecimento suficiente para perceber quando uma resposta não faz sentido.” Dominar uma ferramenta de IA não se resume a escrever bons comandos: “Saber utilizar IA não é simplesmente saber escrever um comando. É também saber avaliar criticamente aquilo que a ferramenta entrega”.
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