Cientistas identificaram uma característica genética que pode explicar por que Jonathan, uma tartaruga-gigante-de-Aldabra com 194 anos, é o animal terrestre mais velho do qual se tem registro. Um estudo publicado na revista Science Advances nesta quarta (7) aponta que o réptil mantém marcas químicas bem organizadas no DNA em regiões que controlam genes ligados à produção de energia nas células.
Jonathan tem marcadores genéticos típicos de organismos muito idosos, mas preserva baixa entropia de metilação em 272 regiões promotoras que ajudam a controlar a atividade dos genes. A metilação funciona como pequenas marcações químicas no DNA que regulam quais genes ficam ativos ou inativos. Com o envelhecimento, essas marcas costumam ficar desorganizadas, mas em Jonathan elas se mantêm tão ordeiras quanto em uma tartaruga de cinco anos.
Como a descoberta foi feita
A pesquisa foi coordenada por Stephen Clark, do Centro de Câncer Vanderbilt-Ingram nos Estados Unidos. Como não foi autorizado coletar sangue de Jonathan pelo risco à saúde do animal, o time obteve seu DNA por raspagem de células da boca. Os pesquisadores então compararam o genoma de Jonathan com o de outros quatro indivíduos da mesma espécie: dois jovens de 5 e 12 anos, e dois adultos com cerca de 90 anos.
O estudo envolveu 22 autores de instituições nos Estados Unidos, Alemanha, Dinamarca, Reino Unido e Santa Helena, onde Jonathan vive. A pesquisa também analisou o epigenoma, o conjunto de modificações químicas que controlam a atividade dos genes sem mudar a sequência do DNA.
O que a organização genética significa
Clark explica que a entropia significa desordem. “A metilação é uma marca química adicionada ao DNA que ajuda a regular como os genes são ligados e desligados”, disse à reportagem. Ele compara o fenômeno a um quarto arrumado que, após dias de uso, fica cheio de roupas e objetos espalhados.
Na maior parte do genoma, Jonathan apresenta entropia alta, compatível com sua idade avançada. Porém, em áreas que controlam genes ligados às mitocôndrias—estruturas celulares responsáveis pela produção de energia—a organização é excepcional. Muitos desses genes estão associados a funções como reparo do DNA, manutenção dos telômeros que protegem os cromossomos, e processamento de RNA.
A hipótese é que manter organizadas essas regiões ajude a preservar a eficiência da produção de energia celular, o que favorece processos essenciais para o funcionamento do organismo. Clark, porém, alerta que o estudo não descobriu um “gene da longevidade”. “Não sabemos se isso é o que o mantém jovem ou se é apenas uma consequência”, afirma. Será preciso estudar outras tartarugas longevas para confirmar se Jonathan é realmente excepcional ou se outros animais compartilham essas características.
Pistas para pesquisa em humanos
A geneticista Mayana Zatz, que pesquisa centenários brasileiros no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, reforça que o trabalho aponta para a importância de examinar não apenas a sequência do DNA, mas também como os genes se expressam. “A diferença entre você ver só o DNA e ver o epigenoma é que na metilação você vê a expressão, como os genes estão ativos ou silenciados”, explica. Seu grupo também investiga metilação, função mitocondrial e reparo do DNA em pessoas que ultrapassaram os 100 anos.
Segundo Clark, a Fundação Kallel, organização sem fins lucrativos que coordenou a pesquisa, pretende estudar outros animais longevos em busca de novos alvos terapêuticos. No futuro, a fundação quer testar em humanos medicamentos já existentes que possam atuar em mecanismos associados ao envelhecimento e prevenir doenças crônicas relacionadas à idade. A pesquisa inicial com Jonathan recebeu financiamento de US$ 50 mil, equivalente a cerca de R$ 250 mil.
A idade exata de Jonathan é desconhecida, mas fotografias de 1882, quando foi levado à ilha de Santa Helena no Atlântico Sul, indicam que ele já tinha pelo menos 50 anos. Assim, sua data de nascimento estimada é 1832.
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