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Sete mulheres de Francisco Beltrão conquistam o Monte Roraima após 100 km de caminhada

Um grupo de sete mulheres de Francisco Beltrão completou uma expedição de oito dias pelo Monte Roraima, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, percorrendo mais de 100 quilômetros e ultrapassando desafios físicos extremos. Ione Modanese, Rosangela Bernardon, Lauana Costa Sandini, Katia Cantelli Trevisan, Adriana Kielek, Debora Nazario e Luzia da Silva Mroginski partiram no dia 16 de setembro para a jornada pela formação geológica mais antiga do planeta.

A aventura contou com apoio de indígenas que atuaram como carregadores, cozinheiros e guias. Durante a travessia, visitaram o Vale dos Cristais, o marco da Tríplice Fronteira, o Mirante La Ventana e o Maverick. Enfrentaram sol intenso, chuva, frio, terrenos irregulares e o desgaste de vários dias consecutivos dormindo em barracas sobre rochas.

De um sonho a um desafio maior

A ideia surgiu após integrantes do grupo terminarem uma trilha no Pico da Bandeira, no Espírito Santo, e buscarem um desafio maior. Lauana relata que uma amiga, Elizandra Severgnini, já conhecia o Monte Roraima e mencionou suas belezas. Ione, professora de geografia, sugeriu formar um grupo para a expedição. Inicialmente cerca de 60 pessoas mostraram interesse, mas apenas as sete seguiram com o projeto até o fim.

Para Ione, o interesse começou ao estudar a formação geológica nos livros e se intensificou após assistir cenas da novela Império, exibida pela Rede Globo entre 2014 e 2015. “Juntou a geologia e as cenas daquela novela, que me deixaram com vontade de um dia ir para esse lugar”, relembrou.

Preparação rigorosa e superação no percurso

Embora tivessem experiência em trilhas, as participantes compreenderam rapidamente que uma expedição dessa envergadura exigia planejamento diferente. Débora explicou: “É uma trilha muito mais complexa, porque não tem pontos de apoio. Se não levar roupa suficiente, não vai ter para comprar. Se faltar comida, não tem onde comprar. Tem que se antecipar muito”.

A preparação física recebeu atenção especial. Ione iniciou treinamento específico três meses antes, com exercícios de força, equilíbrio e resistência. Mesmo assim, a experiência no Roraima superou as expectativas. “Lá chegamos à exaustão física. Treinamos, fizemos caminhada três vezes por semana, mas nada se compara àquilo, porque eram cerca de 2.800 metros de altitude e terrenos muito diferentes e irregulares”, relatou Ione.

Os primeiros 30 quilômetros ocorreram pela savana sob sol intenso. No terceiro dia veio a subida mais exigente, com aproximadamente 6,5 quilômetros de caminhada e mil metros de desnível vertical.

No topo: um novo mundo de desafios

A chegada ao cume trouxe sensação de conquista, mas revelou a dimensão real do desafio. O terreno apresentava rochas, fendas e crateras com água. O clima mudava rapidamente, alternando calor, chuva, vento, neblina e temperaturas negativas durante a noite. “Nada do que já vi na vida é parecido com aquilo. As nuvens baixavam, você não enxergava nada e começava a chover. Em questão de horas, vivenciávamos todas as condições climáticas”, descreveu Ione.

Katia, que não fez preparação física especial e apenas manteve sua rotina de crossfit e pilates, admitiu ter chegado ao limite físico e emocional. “Eu consegui chegar, mas achei que não chegaria. Teve um momento em que falei pra Ione que só estava indo em frente porque enxergava o acampamento. Meu cérebro não queria mais”, confessou.

Nos momentos mais difíceis, o grupo recorria a uma frase que se tornou símbolo da expedição: “Ninguém solta a mão de ninguém.”

O Mirante La Ventana foi escolhido como um dos momentos mais marcantes. A visibilidade depende das condições climáticas, e a neblina frequentemente encobre a paisagem. “La Ventana é uma loteria. A gente estava cansada e, quando chegamos lá, abriu. Foi um momento de descanso e paz, uma imagem que marcou”, relatou Débora.

Rosangela guardou lembrança especial das noites na montanha. Sem a iluminação das cidades, o céu estrelado impressionou pela intensidade. “As estrelas eram gigantes. Parecia que a gente tinha que colocar óculos de sol para olhar para elas, de tanto que brilhavam. Nunca tinha visto isso. O céu foi uma coisa que me impactou”, recordou.

Descida tensa e volta ao mundo sem conectividade

A descida do paredão, no sexto dia, com mochilas pesadas, trouxe tensão. “A gente desce preocupada porque não quer se machucar, torcer um pé, porque sabe que não tem socorro”, explicou Lauana. O grupo teve sorte com tempo ensolarado e pouca chuva nesse trecho; com chuva, a descida seria muito mais lenta e perigosa.

Durante a expedição, as atividades começavam por volta das 5h30 com café da manhã, e as caminhadas iniciavam às 7h. A chegada aos acampamentos geralmente acontecia por volta das 17h. Sem sinal de celular, as noites se transformaram em momentos de convivência. Os indígenas serviam café e pipoca enquanto as beltronenses conversavam com outros participantes. “Era uma troca muito interessante. Voltamos ao tempo em que as pessoas não tinham celular e conversavam”, lembrou Luzia.

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