HomeMarechal Cândido RondonPlebiscito em Alto Mirim decide a qual município a comunidade pertence

Plebiscito em Alto Mirim decide a qual município a comunidade pertence

Uma comunidade dividida pelo mapa, mas unida por décadas de história e raízes em um único município. É o caso de Alto Mirim, localizada a cerca de quatro quilômetros de São João e aproximadamente vinte e cinco quilômetros de Chopinzinho, no Sudoeste do Paraná. Moradores votarão em 25 de outubro de 2026 — no mesmo dia do segundo turno da eleição presidencial — para decidir oficialmente a qual dos dois municípios a localidade pertence.

A indefinição territorial remonta a 1960, quando São João foi desmembrado de Chopinzinho. Na época, as duas câmaras municipais concordaram com um plebiscito para transferir Alto Mirim para São João, aprovado pela Assembleia Legislativa. O resultado foi registrado, mas a documentação desapareceu parcialmente. Por décadas, os moradores viveram acreditando que a questão estava resolvida, estudando, votando e pagando impostos em São João.

Essa situação mudou em 2014, quando o município de São João ingressou na Justiça com uma ação declaratória que foi arquivada em 2020. O conflito ganhou novo impulso em 2026, quando uma pesquisa acadêmica ressuscitou o tema.

A pesquisa que saiu dos muros da universidade

A estudante Roseli Teresinha Lorenzett desenvolveu, no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon, uma dissertação sobre o litígio territorial. Nascida e criada em Alto Mirim, Roseli investigou como a indefinição dos limites municipais afeta a identidade dos moradores e seus vínculos comunitários.

A pesquisa reuniu documentação dispersa: registros de propriedades, boletins escolares, certidões e outros materiais que comprovam as relações históricas, políticas, educacionais e sociais entre Alto Mirim e São João. Conforme o trabalho, durante aproximadamente quatro décadas, moradores de gerações anteriores viveram e morreram acreditando que já eram parte de São João, enquanto as gerações mais novas convivem com uma relação diferente com o território.

O trabalho chamou a atenção do procurador de São João, doutor Orides Negrello Neto, que a utilizou para embasar o encaminhamento do plebiscito a instâncias superiores. Segundo Roseli, a pesquisa ajudou a apresentar Alto Mirim não apenas como uma área em disputa, mas como um espaço ocupado por pessoas com histórias e vínculos construídos ao longo de décadas, contribuindo para o consenso entre os dois municípios sobre a necessidade de regularização.

Muito além de terra: identidade e pertencimento

Para a pesquisadora, o principal desafio foi demonstrar que o conflito envolve muito mais que uma faixa de terra delimitada em mapas. Existem pessoas que construíram trajetórias naquele espaço, com décadas de vivência, identidade e pertencimento a São João. A indefinição territorial criou uma situação ambígua: gerações cresceram com uma identidade consolidada com um município, enquanto legalmente pertenciam a outro.

O coordenador do programa, professor doutor Fabio de Oliveira Neves, destaca que a excelência de um programa de pós-graduação não se mede apenas por infraestrutura ou volume de teses, mas pelo impacto social e capacidade de transformar a realidade. Segundo ele, o programa se diferencia por gerar impacto concreto na região de fronteira, alinhado às novas métricas de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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