Wesley Santos, motoboy de 23 anos, esperou mais de vinte minutos debaixo de chuva forte para que um cliente buscasse sua encomenda. Ao concluir a entrega, a pessoa sequer agradeceu pelo esforço. O episódio ilustra a rotina de pressão enfrentada pelos entregadores de aplicativo nas grandes cidades.
Para um profissional que trabalha até 12 horas por dia, vinte minutos parado significam um terço de hora sem faturamento. Wesley realiza cerca de 30 viagens diárias para ganhar pouco mais de R$ 250 brutos. Desse valor saem despesas como combustível, manutenção da motocicleta e alimentação, todas pagas do próprio bolso.
Como os aplicativos só liberam a próxima corrida após a conclusão da entrega, o tempo retido no portão afeta toda a jornada. Quando o motoboy espera cliente por período longo, as consequências diretas incluem redução de corridas realizadas, necessidade de prolongar o expediente para cumprir metas financeiras, exposição prolongada a chuva e risco de reclamações se o produto se molhar, prejudicando a avaliação no app.
Quem são os entregadores no Brasil
Pesquisa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo mostra que 90% dos entregadores são homens, 62% declaram-se negros e 44% têm entre 25 e 35 anos. A média de trabalho é de 40,9 horas por mês, com rendimento médio de R$ 11,27 por hora no Centro-Oeste. A renda mensal média para motociclistas brancos chega a R$ 2.634, enquanto para os negros é de R$ 2.287.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicam que mais de 1,7 milhão de pessoas trabalham conectadas a plataformas de transporte e entrega no Brasil, representando quase 2% da população ocupada no país. A falta de vínculo formal e a inconstância marcam essa atividade conhecida como economia de bico.
O que especialistas apontam sobre o problema
Ricardo Colturato Festi, sociólogo e professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, afirma que a nomenclatura de “empreendedorismo” mascara a precariedade dos direitos básicos. “Eles precisam de previdência, de previsibilidade na relação de trabalho, de transparência da gestão algorítmica, de diversas formas de proteção social, fora as necessidades básicas. Há uma vitória de uma subjetividade neoliberal na sociedade brasileira que leva a uma desvalorização das concepções solidárias e desumaniza o trabalho. Os entregadores são essenciais na sociedade capitalista de hoje, mas são indivíduos descartáveis”, diz Festi.
Alessandro da Conceição, presidente da Associação dos Motofretistas Autônomos e Entregadores de Aplicativo do DF (Amae-DF), relata o sentimento de invisibilidade: “Eu me sinto invisível e cansado, porque nós nos entregamos para esse trabalho, dando conforto para a sociedade, mas não somos bem remunerados, as condições são precárias e somos desvalorizados, apesar de colocarmos em risco a saúde e a segurança”.
Pontos de apoio: lei existe, mas falta estrutura
No Distrito Federal, onde atuam cerca de 30 mil entregadores, o governo sancionou a Lei Distrital nº 6.677/2020, que obriga a implementação de pontos de apoio para trabalhadores de aplicativo em todas as regiões administrativas. Apesar da exigência legal, o Sindicato dos Motociclistas Profissionais (Sindmoto-DF) aponta que existem apenas dois pontos de apoio ativos em toda a capital federal.
Um dos pontos, no Setor Comercial Sul de Brasília, oferece banheiros, micro-ondas e espaço de descanso, mas sofre com reclamações de espaço reduzido para estacionamento. O ponto localizado no Lago Norte não conta com banheiros, água potável, tomadas funcionais ou sinal de internet, funcionando de forma semelhante a uma parada de ônibus exposta ao tempo. A distância entre a legislação e a prática evidencia a precariedade das estruturas para descanso, higienização e alimentação dos entregadores.
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