A feijoa é uma fruta nativa do sul do Brasil tão esquecida em seu território de origem que a maioria dos brasileiros nem conhece seu nome. Com casca verde e dura, polpa mole e aroma que mistura abacaxi, banana e amora, ela conquistou mercados internacionais enquanto permanece anônima por aqui.
A planta, também chamada de goiabeira-serrana, faz parte da história dos povos xokleng, kaingang e guarani, que a cultivavam nos territórios que hoje são Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e norte do Uruguai. Ainda hoje povos indígenas a usam para fins medicinais.
No exterior, a situação é outra. A Nova Zelândia é um dos maiores produtores mundiais, com área de cultivo comercial de 116 hectares, além de árvores em quintais particulares. A Colômbia também tem tradição no plantio, nos Andes, onde os pés produzem fruto o ano todo. Em ambos os locais, muitos moradores acreditam que a feijoa é originária da região.
Jornada internacional começou no século 19
A trajetória da feijoa pelo mundo teve início quando o botânico alemão Friedrich Sellow enviou amostras à Europa, no início do século 19. Em 1856, Otto Berg catalogou a espécie e a nomeou Feijoa sellowiana, em homenagem a Sellow e ao naturalista brasileiro José da Silva Feijó.
Cerca de 50 anos depois, o arquiteto e botânico francês Édouard André levou mudas uruguaias para o sul da França, onde a planta se adaptou e começou a frutificar. André publicou um artigo divulgando a goiabeira-serrana ao mundo, gerando interesse, principalmente nos Estados Unidos.
O italiano Francesco Franceschi, viveirista de plantas exóticas, foi um dos pioneiros na importação para a Califórnia, em Santa Bárbara. Tão entusiasmado com a planta que enviava folhetos aos clientes descrevendo a polpa branca, suculenta e doce, Franceschi ajudou a disseminar o cultivo para Colômbia, Nova Zelândia e outros países no início do século 20.
Falta conhecimento e estrutura no Brasil
Apesar do interesse científico crescente dos últimos dez anos, a produção brasileira é tão pequena que fica difícil medi-la com precisão. O desconhecimento acontece por falta de estudos, de marketing e de uma cadeia produtiva estruturada, segundo Rubens Nodari, pesquisador de recursos genéticos agrícolas e florestais da Universidade Federal de Santa Catarina.
Embora a Epagri, empresa de pesquisa agropecuária de Santa Catarina, crie variedades de feijoa mais resistentes a pragas desde 1985, ainda falta conhecimento consolidado sobre o manejo da planta. As mudas levam de 3 a 5 anos para frutificar e gerar o primeiro retorno econômico. Diferente da Colômbia, o cultivo brasileiro é sazonal.
Outros desafios incluem a colheita trabalhosa, já que a fruta não muda de cor quando amadurece e só cai do galho, além da durabilidade limitada dos frutos, que perdem sabor rapidamente. A planta também exige locais altos e clima mais frio.
Nodari compara com o açaí, que se disseminou no Brasil porque já existia cadeia produtiva estruturada na Amazônia. A goiabeira-serrana ainda não tem consumo significativo nem em sua própria região de origem. Uma expansão no curto prazo é difícil de visualizar, avalia o pesquisador, que estuda a planta há 30 anos.
Ainda assim, agricultores em Santa Catarina e Rio Grande do Sul ampliam lentamente o cultivo. Adriano Costa, produtor de 54 anos de São Joaquim (SC), cultiva a goiabeira-serrana há 14 anos e está expandindo para dois hectares, com mil árvores cada um.
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