Karina Amadori, artista visual nascida em Pato Branco em 1980 e radicada em Curitiba, está com obras em cartaz ao mesmo tempo em três exposições. No Brasil, integra a mostra “Poéticas Paranaenses, Mulheres do MAC no MAB”, no Museu de Arte de Brasília, e a 16ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, no Museu Municipal de Arte. Na Europa, representa o Brasil no Pavilhão Nacional da 2ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Durrës (DIBoCA), na Albânia. É um alinhamento raro na carreira de qualquer artista e, neste caso, aponta para um trabalho que amadureceu a ponto de circular por geografias e públicos muito diferentes ao mesmo tempo.
Uma pesquisa construída em torno da seda
Autodidata nas artes, Amadori chegou à escultura por um caminho pouco convencional: formada em Terapia Ocupacional, ela carrega da profissão um conhecimento de anatomia que atravessa seu trabalho, presente em narrativas viscerais sobre corpo, memória e o feminino. Há mais de uma década, sua pesquisa gira em torno de três eixos que se cruzam: a sericicultura, com destaque para a Ceranchia apollina, mariposa de Madagascar cuja seda é extraída sem sacrifício do animal; o manguezal, ecossistema de transição que aparece fisicamente em obras como “Coluna Suspensa”; e a araucária, árvore símbolo do Paraná e da floresta ombrófila mista, tema de uma série que a artista desenvolve desde 2019, entre desenhos a grafite e peças sublimadas sobre seda.
O Paraná é o maior produtor de seda das Américas, e não é por acaso que esse material ocupa o centro da obra de uma artista formada e radicada no estado. Amadori usa a fragilidade aparente da seda, do fio e da fibra vegetal como contraponto a temas de peso simbólico e físico: ancestralidade, resistência, o corpo feminino. É dessa tensão, entre leveza material e densidade conceitual, que nasce a força mais reconhecível do seu trabalho.
Três mostras, três obras, dois curadores
Em Brasília, na exposição coletiva “Poéticas Paranaenses”, com curadoria de Monica Spezia Justen, a artista apresenta “Atravessamentos”, trabalho em seda natural. Sobre a pesquisa da artista, Justen escreveu que “o silêncio, a reserva e a apatia são também respostas legítimas, formas políticas de habitar o mundo ordinário”, uma leitura que aproxima o trabalho de Amadori de uma reflexão sobre gestos mínimos como forma de resistência.
Na 16ª Bienal de Curitiba, projeto “Relações Nômades da Visão”, Amadori exibe “Coluna Suspensa: O Mistério da Raiz Aérea” (2024), peça de grande escala construída com raízes de mangue, seda e nylon. É o mesmo curador, o italiano Massimo Scaringella, que assina a mostra brasileira e o Pavilhão Nacional do Brasil na Bienal de Durrës, na Albânia, onde a artista integra a 2ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea (1 a 31 de outubro) com “Floresta Ombrófila Mista” (2023), desenho sublimado em voal de seda, 175 x 118 cm, exibido no Museu Etnográfico da cidade. A obra nasce de um gesto coletivo: ao longo dos últimos anos, sabendo do seu interesse pelo tema, amigos e familiares passaram a enviar à artista imagens de araucárias, que ela transforma em desenho antes de sublimá-lo sobre a seda. “Elas (r)existem!”, resume Amadori, sobre o instinto de sobrevivência que vê na árvore e que estende à condição do feminino e da natureza diante da sociedade.
Scaringella é curador independente com mais de 40 anos de carreira, ligado desde 2000 à área de arte contemporânea do Ministério das Relações Exteriores da Itália e responsável por mais de 250 exposições em 40 países, entre elas os pavilhões da Costa do Marfim na Bienal de Veneza e a direção artística da Bienal del Fin del Mundo, na Argentina. A DIBoCA, bienal albanesa que ele agora comanda, foi fundada em 2023 pelo artista e historiador Oltsen Gripshi.
Uma trajetória que já passou por várias frentes internacionais
Essa presença ao mesmo tempo em três países não é um episódio isolado. Nos últimos anos, o trabalho de Amadori já circulou pela Fondazione Donà dalle Rose e pela Rome Art Week, na Itália, pela Maison du Brésil, em Paris, pela Casa do Brasil no Centro Cultural de Madri, na Espanha, e pelo Instituto Guimarães Rosa, em Assunção, no Paraguai. Suas peças integram acervos de instituições como o Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR), o Museu Paranaense (MUPA) e o Museu da Imagem e do Som (MIS).
A artista não tem representação de galeria e conduz sozinha a gestão de sua carreira, o que torna esse alinhamento de três mostras ainda mais notável: cada uma dessas frentes, da produção à interlocução com curadores e instituições, passa por suas próprias mãos.
É esse conjunto, seda, araucária e manguezal tecidos como uma só pesquisa, que hoje atravessa fronteiras e chega, ao mesmo tempo, a três países diferentes.
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